quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Atualização Hermenêutica de Tiago 5.1-6



Segue abaixo minha atualização hermenêutica de Tiago 5.1-6, último tópico da exegese apresentada para o Trabalho de Conclusão de Curso em Teologia.

Tradução da perícope de Tiago 5.1-6 do grego.

¹“Atendei agora os ricos: Lamentai clamando por causas das misérias que vos sobrevirão. ²
As vossas riquezas estão corroídas e as vossas roupas se tornaram comidas para as traças. ³ O vosso ouro e prata ficaram enferrujadas, e a ferrugem vos será para testemunho contra vós e comerá vossa carne. Entesourastes fogo para os últimos dias! 4 Eis que o salário, defraudado dos trabalhadores que ceifaram vossos campos, clamam, e o clamor dos ceifeiros chegaram até os ouvidos do Senhor Sabaoth. 5 Tendes vivido com prazer e luxo sobre a terra e tendes engordado vosso coração no dia de abate. 6 Tendes condenado e matado o justo: Ele não resisti a vós!”.



MÃOS DADAS 
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
  
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.[1]

A poesia que acabamos de escrever acima é de autoria do escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade e nos revela sua preocupação para com o contexto histórico-social de uma época marcada pela tendência global que se caracterizou pela mudança de comportamento, onde líderes de governos democráticos se tornaram em líderes autoritários, tais como Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Franco na Espanha, Salazar em Portugal e finalmente Vargas no Brasil.
O que nos chama a atenção no presente poema é a postura assumida em relação ao outro, numa atitude de alteridade, de reconhecimento do outro, e a responsabilidade em que ele, o autor, chama para si mesmo. Denuncia o mundo como um mundo alienado/caduco, e não mais quer viver pensando num mundo melhor num futuro distante, mas pelo contrário, a visão da realidade em que vive o assusta e o leva a tomar atitudes de enfrentamento. Não se limita na luta por si, mas vai além do eu, a tomada de consciência de sua realidade o leva a perceber o drama existencial das pessoas que o cercam, reconhecendo como companheiros.
O termo “estão taciturnos”, estão calados, estão quietos, demonstra o desânimo da realidade que os cercam e que colocam suas esperanças apenas no futuro, numa espécie de espera paciente por um messias que pode acabar com seus sofrimentos.
A postura assumida por Drummond é o da solidariedade, ao oferecer suas mãos, ao andar de “mãos dadas” revela a intenção de quebrar a inércia e iniciar um movimento pautado na solidariedade humana diante da dura realidade que o cerca, o remédio encontrado por Drummond para este mundo em que se perde a referência da dignidade da pessoas humana é o caminho da solidariedade.
A última estrofe de seu poema é estarrecedor para todos nós, cristãos e cristãs, pois sua leitura da realidade demonstra a futilidade de se viver alienado aos dramas humanos no que tange a tentação/tendência que se tem de se fechar dentro de nossas torres de marfim e trabalharmos meramente na elucubração fantasiosa que não atende em nada aos nossos problemas sociais. O que temos em Drummond é a postura de proatividade, solidariedade no caminhar juntos para encontrar uma saída deste labirinto “caduco” e alienado que tende a manter o povo na ignorância.
Recentemente temos ouvido e lido em diversos meios de comunicação, material ou digital, sobre a polêmica reforma trabalhista promovida por nossos representantes. No Brasil segundo dados do TST (Tribunal Superior do Trabalho) a média mensal de ações trabalhistas propostas em todo o território nacional antes da reforma trabalhista era de aproximadamente 200 mil[2]. Números expressivos e severamente atacado pela grande maioria dos deputados que votaram a favor da medida por entenderem que existia algo “errado” com a legislação. Após a reforma trabalhista esses números, segundo dados da mesma fonte acima citada, revelam que a média mensal de novas ações caíram para 84,2 mil, mais de 54%, como afirma a revista Carta Capital.[3]
Ao olharmos rapidamente sobre os números podemos ser levados a pensar que a reforma trabalhista foi um sucesso, e de fato o foi, mas, infelizmente, não para os trabalhadores que são, ou eram considerados como parte hipossuficiente da demanda.
Isso porque, um dos princípios que regem o Direito Processual Trabalhista, bem como o Direito do Trabalho, são os da isonomia e o da hipossuficiência. Ou seja, o princípio da isonomia se dá no campo da igualdade, e esta, se dá com a máxima: “Tratar os iguais igualmente na medida de suas igualdades, e os desiguais, desigualmente na medida de suas desigualdades”. Neste caso, o que se concretizou foi uma afronta a Constituição Federal, não podemos ser ingênuos ao ponto de achar que o empregado está em pé de igualdade diante do enorme poder econômico das empresas. Neste ponto o princípio da hipossuficiência do empregado frente a relação de trabalho deixou de ser observado pois a CLT, Consolidação das Leis Trabalhistas, considera o empregado como a parte mais frágil na relação de emprego.  
Destarte, concluímos que as medidas que diminuíram as demandas judiciais não são justas, mas uma afronta a justiça, a Constituição Federal, a dignidade da pessoa humana pelo simples fato de exercerem um caráter fortemente inibidor, tendo em vista que antes da reforma o trabalhador não corria o risco de sofrer danos maiores caso perdesse o litígio, agora, neste novo cenário o empregado é alertado pelos novos dispositivos da lei que uma possível sentença desfavorável lhe acarretaria grandes prejuízos econômicos, gerando de forma coercitiva, ainda que psíquica, uma posição de suportar “apenas” os prejuízos suportado pelo empregado.
A realidade que se descortina aos nossos olhos é a do corporativismo empresarial e elitista da alta classe que luta por mais lucros em face dos pobres trabalhadores que são calados, agora de forma “legal”, e levados cada vez mais aos matadores, por terem um dos maiores direitos tolhidos dentro de um Estado de Direito Democrático, o trabalhador oprimido é obrigado a suportar os prejuízos sem o necessário acesso à justiça, seu direito de clamar por justiça as portas do pretório lhes foram “veladamente” cerceados!
Não há quem clamem por eles pelas injustiças suportadas!!
Ainda que a epístola de Tiago seja dirigida a uma universalidade de destinatários, de diversos tempos e espaços, podemos facilmente visualizar, no contexto histórico-social por ele vivido, as questões do sistema greco-romano que mantinha ideologicamente o governo.
Tiago surge como um profeta que não se conforma com as ambiguidades e as desigualdades pautadas e mantidas na injustiça social.
Na perícope de Tg.5.1-6 vemos a postura de Tiago, ainda que não tenha se dado em um caso concreto particular e especifico de sua comunidade, mas sim, era de fato uma realidade que cercava todo o império romano e que onde quer que a sua carta fosse lida seria compreendida sem grandes esforços.
Essa postura se dá claramente devido ao fato de que todas as ações realizadas pelos ricos se voltariam contra eles numa denúncia apocalíptica futura, mas breve, Tiago desvela a origem podre e corrupta da riqueza dos ricos, produzidas pelo sistema vigente e opressor.
Os pobres não tinham legitimidade para propor uma ação de reparação de danos sem que lhe houvesse alguém mais poderoso, geralmente, como se tratava de um sistema clientelista, essa figura protetora se dava no padrinho, que davam condições de pleitear junto aos tribunais a sua causa.
Os “clientes” deveriam se sujeitar aos seus “patrões” com honrarias durante as cerimonias, adulações durantes as festas ou nas aparições civis, em contrapartida eles lhes davam proteção, doavam monumentos aos templos, realizavam alguma benfeitoria pública. Quanto mais clientes o patrão tem, mais prestigio, mais terras, mais ocupações publicas eles teriam durante as divisões.
O problema se dá quando os próprios ricos que deveriam cuidar e velar pelos seus subordinados vendo sua fragilidade os oprime. Estes oprimidos não têm voz numa sociedade marcada por excluídos.  Demanda jurídica que se inicia não se dá entre os ricos e os pobres, visto que os ricos os oprimem não pagando por seus trabalhos, incorrendo com bem apontado por Tiago numa releitura de Levíticos como um caso claro e análogo ao assassinato em que os ricos praticavam diuturnamente sem se quer se preocuparem, mas pelo contrário, a demanda judicial se dá entre Deus e os ricos.
No caso (demanda) Deus versos ricos, a condenação é certa, não há como escapar, a sentença foi dada, os ricos devem chorar por tamanha desventura.
O texto nos revela que os salários dos trabalhadores eram retidos com fraude, não eram pagos, ainda hoje, em nosso ordenamento jurídico pátrio o salário retido pelo patrão se configura como crime.
O pobre não tem forças sequer para clamar, a opressão é grande.
Quem clama, descreve Tiago, é o próprio salário não pago, nos lembra a figura da terra que clama a Deus por justiça ante o sangue derramado quando Caim matou Abel.
E para que, qual o motivo que leva o rico a manter tal postura infame? Somente para ajuntar cada vez mais riquezas, e acumular cada vez mais roupas caras que serão guardadas sem utilização.
Isso tudo se dá diante da necessidade que o rico tem de viver com o luxo enquanto o justo, o justo aqui tratado se trata do pobre, tem morrido a sua volta, numa ação diametralmente direta a sua riqueza.
O eixo vida/morte, luxo/necessidade, supérfluo/imprescindível contrasta os polos deste sistema pernicioso denunciado por Tiago.
Diante de tudo que temos exposto até o momento se verifica que a postura que Deus requer dos cristãos é que assumam uma conduta ética no sentido de nos exortar a se envolver com a nossa realidade e seus dramas.
A luta descampada por Tiago se da no campo da conduta prática e ética cristã como expressão da nova fé.
Assim como Carlos Drummond de Andrade, Tiago se recusa a viver e escrever sobre assuntos meramente especulativos, e trabalha neste sentido para que as comunidades espalhadas pela diáspora não se detenham numa fé sem obras, ele denuncia aos seus destinatários que a fé sem obras é morta, ou seja, nunca existiu.
Tiago revela a seus destinatários que não se deve viver sobre a guarda dos ricos, mas somente de Deus, e chama a atenção para a responsabilidade que os ricos têm diante dos pobres, essa responsabilidade deve se dar no campo do cuidado, proporcionando e promovendo a dignidade da vida humana.
Sendo assim somos chamados a empreender uma postura ativa e profética no que tange a denúncia diante das injustiças sociais que nos cercam.
Somos chamados, assim como Tiago, bem como Drummond, a não vivermos as nossas vidas de maneira alienada aos problemas sociais, mas a de mãos dadas aos nossos irmãos, num sentido de solidariedade, de sofrer juntos com os que sofrem, chorar com os que choram.
A fé deve ser vivida no campo do cotidiano, do dia a dia.
A Bíblia Sagrada é a grande fonte irradiadora de princípios que preserva a dignidade da pessoa humana e construção de uma sociedade mais justa e equânime.  

   


Bibliografia


ANDRADE, Carlos Drummond de, 1902-1987. Sentimento do mundo/ Carlos Drummond de Andrade. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BECQUET, G. A Carta de Tiago: leitura sociolinguística. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
BITTENCOURT, Heitor. IAKΩB A enunciação do discurso religioso: leitura/análise do texto grego na Epístola de Tiago. 2008. 362 f. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo/SP: Disponível em: < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-02122008-165311/en.php>. Acesso em: 19/09/2018.
CROATTO, Severino. “A carta de Tiago como escrito sapiencial” In. Revista de Interpretação Bíblica Latino Americana (RIBLA). Nº.31, p.24-41. Petrópolis/RJ: Vozes, 1998.
CUBAS, Marina Gama. Após a reforma, número de novos processos trabalhistas caiu pela metade. Carta Capital. 01/05/2018. Disponível em:< https://www.cartacapital.com.br/politica/Apos-reforma-numero-de-novos-processos-trabalhistas-caiu-pela-metade> Acesso em: 20/09/2018.
DÉCIO, Jose w.; KONZEN, Léo Zeno. "A vossa riqueza apodreceu: a carta de Tiago, no contexto da resistência das primeiras comunidades”. Estudos Bíblicos
DÉCIO, José W. “Trabalhador e trabalho”, In. Revista Estudos Bíblicos, nº 11. Petrópolis: Vozes, 1986.
KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo primitivo. São Paulo: Ed. Paulus, 2005.
KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982.
LAGUNA, Eduardo, RINALDI, Caio. Ações trabalhistas caem mais de 50% após reforma. Estadão. São Paulo. 03/02/2018. Disponível em: < https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,acoes-trabalhistas-caem-mais-de-50-apos-reforma,70002176586> acessado em: 20/09/2018.
MÍGUEL, Néstor O. A Carta de Tiago. Petrópolis: Vozes, 1998.
MOO, Douglas J. Tiago: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1990.
NOGUEIRA, Paulo. “O grito do salário: Conflito no mundo do trabalho em Tiago 4,13-5,6”, In. Revista Estudos Bíblicos Nº.44. O povo da terra. Petrópolis: Vozes/Sinodal, 1994.
NOGUEIRA, Paulo. “A dignidade do pobre numa sinagoga cristã da diáspora – Um exemplo de seguimento da Torá no cristianismo primitivo”, In. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Nº.31. A carta de Tiago. Petrópolis/RJ: Vozes/Sinodal, 1998.
VIEIRA, Rosinaldo Ernesto. A epístola de Tiago: A relação entre fé e obra. Dissertação de Mestrado. Universidade Católica de Pernambuco. Recife, 2018. Disponível em: . Acesso em: 19/09/2018.
TAMEZ, Elsa. A carta de Tiago numa leitura latino-americana. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1985;
VOUGA, François. A Carta de Tiago. São Paulo: Loyola, 1996. 



[1] ANDRADE, 2012, p.34.
[2] LAGUNA, 2018.
[3] CUBAS, 2018.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O caminho para a vida eterna passa pelo próximo

Primeiro sermão como Pastor Licenciado

Título: O caminho para a vida eterna passa pelo próximo.

Texto: Lucas 10.25-37.

Tópicos:

1) Nós devemos ser como o bom samaritano;

2) A igreja deve ser como o bom samaritano;

3) Jesus, o Cristo, é o bom samaritano.

Palavras chaves: Empatia, percepção, compaixão, alteridade, salvação.

Exemplos citados:
Igreja Confessante (Igreja Protestante que se levantou contra a Alemanha nazista) que nos legou a "Declaração Teológica de Barmen";
Igreja Presbiteriana do Brasil que teve como principal resultado da obra teológica, escrita pelo Rev. Eduardo Carlos Pereira em 1886, "A Religião Cristã e suas Relações com a Escravidão", a monção de repudio a escravidão.
(http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/221739)

Citação: Albert Eistein apud Rev. Valdinei Ferreira:

"Por fim, o físico Albert Eistein, depois da queda de Hitler, afrmou que esperava que as Universidade oferecessem resistência ao totalitarismo, mas elas silenciaram diante dos abusos; esperava que os jornais lhe fizessem oposição em nome da liberdade de pensamento, mas ele rapidamente aderiram ao nazismo. Entretanto, Eistein, que nunca havia admirado nem se interessado pela igreja cristã, diante do testemunho da igreja Confessante, disse que havia aprendido a admirar e a respeitar os cristãos, pois foram os únicos que se colocaram no caminho de Hitler" (FERREIRA, 2018, p.27). 


FERREIRA, Valdinei. Jornal. O Estandarte. nº 11. Editora Pendão Real. São Paulo/SP. 2018.